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voyeur (2017) | filme de josh koury e myles kane

Vez ou outra, indico um filme a alguém que depois vem me dizer com cara de decepção: “pensei que era filme, mas era um documentário”. O oposto, curiosamente, também já aconteceu: “você disse que era sobre tal assunto, mas quando eu fui assistir era a história de um casal” – como se não fosse óbvia a quantidade virtualmente infinita de assuntos que se passam na história de um (nunca) simples casal. Da mesma forma, um documentário com um assunto central pode contar uma história (pela edição, montagem, movimentos de câmera…), além daquela que os fatos filmados encenam – é possível outra cena. Parece-me que este é o caso do filme documentário Voyeur, de Myles Kane e Josh Koury, que estreou na Netflix no último dia primeiro.

O filme tenta mostrar os dois lados da criação de uma entrevista jornalística (entrevistador/entrevistado) e para isso segue o jornalista americano Gay Talese em seu trabalho de entrevistar Gerald Foos, um ex-dono de um hotel de beira de estrada, para um artigo a ser publicado na New Yorker e depois, em versão estendida, num livro. A história que Talese busca é a de como Foos reconstruiu seu hotel com um sótão, onde passava dias e noites escondido espionando a intimidade de milhares de hóspedes por décadas – um voyeur nunca pego em seu ato, mas que 20 anos depois de cessar sua prática, vem a público contá-la. Ficamos então assistindo a essas duas figuras.

No documentário, o voyeur Foos, um senhor na casa dos 70 anos, relata a cumplicidade de suas esposas e detalhes de suas atividades no hotel, onde chegava a dar cortesias para alguns hóspedes para que permanecessem mais uma noite e ele pudesse observá-los um pouco mais, sem contar-lhes essa segunda parte. Foos pode observar dessas pessoas seu tédio, seu sexo, seus dramas, seu cotidiano maçante e algumas vezes cenas chocantes (necessário assistir ao filme pra saber).

De outro ponto de vista, a câmera de Kane e Koury seguem Talese, octogenário, famoso por seus trabalhos que envolvem matérias premiadas, em especial sobre comportamentos sexuais do povo americano, tendo sido muitas vezes acusado de ser um pervertido devido a esses interesses, e sua família sido exposta ao ódio de “defensores da moral americana”. O trabalho de escrita de Talese, suas dúvidas sobre como lidar com a personagem de sua matéria, como não fazê-lo parecer ainda mais um monstro criminoso e como checar fatos sobre um homem que confessa décadas do mesmo crime, devem ser de interesse para jornalistas de todas áreas. Mas, aqui vamos por outra direção.

Flashes da história de Foos nos são dados já em um prólogo com enxertos de cenas que veremos completas à frente. O primeiro arco, propriamente, começa com Talese dizendo que o mais importante ao contar uma história é fisgar o leitor já no início. E como o filme faz isso?

Depois do letreiro “VOYEUR” sair da tela, não vemos o homem que por 47 anos manteve segredo sobre seu prazer de observar pessoas sem que elas o vissem: vemos o respeitável jornalista. Essa escolha de montagem permite que o expectador antecipe para onde o filme começa a curvar… um componente voyeur também faz parte do sujeito entrevistador (que chega ao ponto de ir experimentar, junto com Foos, espionar um casal durante o sexo).

Fisgados de curiosidade sobre as décadas de prática voyeur de Foos, somos lançados numa rima narrativa que mostra, além da proposta explícita do documentário (o voyeur Foos), que temos mais de um voyeur em cena. Caixas e mais caixas com informações das vidas das muitas pessoas que Talese entrevistou e seu tema de pesquisa predileto – aqueles ligados à sexualidade e à hipocrisia moral americana. À frente, veremos que Foos guarda anos de relatórios, descritivos e quantitativos, das cenas e das pessoas que espionou, já que se considera um pesquisador do comportamento humano.

Interessante que a frase de Foos encontra eco na noção de “pulsão epistemofílica” ou “pulsão ao saber” (Wissentrieb) que Freud traça nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade: toda curiosidade e espírito pesquisador provém da curiosidade sexual infantil sobre a origem dos bebês, da diferença anatômica dos sexos, etc.

Como se montagem já não tivesse sido efetiva o suficiente para nos remeter a esta ideia, os diretores deixam uma frase do próprio Talese que explicita que ele percebe a identificação entre si e seu objeto de pesquisa. Mesmo assim, me pergunto se ele tem a dimensão das palavras que diz: “sou um observador”, “vivo minha vida através das experiências vividas por outros”…

Pelo menos desde Freud em “Pulsão e seus destinos”, sabemos que o par de opostos voyeurismo/exibicionismo correspondem a dois polos aos quais a pulsão sexual pode se deslocar, este sendo a inversão para a passividade do primeiro. Mas, os destinos de pulsões podem ser vários. Nos casos dos dois homens, um deles lhe destina essa pulsão à sublimação – um caminho que passa pelo reconhecimento social, pelo trabalho com a escrita, com a cultura, com o registro e a abertura para a ampla discussão de sua prática de “observar e relatar”. O segundo deles, operacionaliza essa pulsão (constrói um hotel, o gerencia, etc) mas sua prática continua, enquanto crime, um segredo de alcova. Foos é chamado pervertido (como Talese também um dia foi).

Os diretores tem sensibilidade suficiente para não deixar a discussão do documentário cair num maniqueísmo simplista e vilanizar Foos – mantemos durante todo o filme a consciência de que ele cometeu décadas de crimes, mas rendidos ao fascínio que ele nos provoca. Koury e Kane mostram o que acontece no trabalho entre Foos e Talese sem tomar partidos ou julgar. Em entrevista, disseram que preferem sempre continuar como observational filmmakers, diretores que se limitam a “observar o que acontece” (já ouvimos isso antes, não é?!) com suas câmeras. Essa sensibilidade reaparece ao filmarem Foos tentando parecer apresentável em seu terno para reencontrar Talese (filho de alfaiate, que se veste sempre com roupas sob medida) ao invés de aterem-se somente ao drama provocado pela publicação do artigo The Voyeur’s Motel.

Pelo meio do filme, conhecemos membros da família de Talese e Foos, já que ambos abrem a casa (e a família) para as câmeras de Koury e Kane. Os observadores não parecem andar descolados de seu oposto exibicionista. E aqui, por interessante que seja pensar como o homem que observou milhares de pessoas escondido aceitou mudar de lado e permitir-se ser observado, prefiro chamar a atenção que nesse momento os diretores encarnam mais definitivamente o papel dos voyeurs nas cenas cotidianas e às vezes afetivas entre Foos e sua esposa Anitta ou observado Talese em sua casa cercado por grandes dilemas éticos (que em alguns momentos parecem caricaturais e bastante forçados para exaltar o quão difícil e excruciante é o trabalho do jornalista). A função voyeur dos diretores fica clara numa cena comovente em que após a publicação do artigo, Anitta sai de casa para pegar o jornal e, ao ver um carro se aproximando se apressa em voltar para não ser vista, temerosa de que do carro viesse alguma represália. Essa cena é filmada de dentro da casa, através de uma janela emoldurada por cortinas, como se a câmera espiasse e não quisesse que Anitta a visse.

Em certa altura, Foos e Anitta começam a expressar aos diretores com quem se encontraram durante anos em sua casa, como o casal já os considera amigos (lembrei-me do documentário brasileiro A pessoa é para o que nasce (2002), em que uma das personagens se apaixona pelo diretor Roberto Berliner durante a longa filmagem).

Aqui, temos um momento de virada na estrutura do filme, que coroa o trabalho da direção: Foos já não observa seus hóspedes; Talese já não observa Foos; Koury e Kane já não observam Talese trabalhando ou Foos e Anitta em sua casa, porque os diretores tornaram-se parte da cena (embora não visualmente); deixaram de ser observational filmmakers e agora são personagens da história contada.

Todos estão expostos e, agora, são observados.

As câmeras tornaram-se nossos olhos. Cada um de nós, expectador, é um Voyeur.

E isso é exemplar do que Freud já disse sobre a sexualidade humana: esses traços que o senso comum e moral consideram sinal de perversão e desvio de caráter em uns, na verdade são componentes da sexualidade de todos os sujeitos e ao somarem-se, de formas diversas e mescladas, produz de cada um, uma sexualidade que lhe é singular.