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psicanálise, literatura e cultura

fragosas brenhas do mataréu – ricardo azevedo | resenha

Se a lida com as palavras é o que caracteriza o ofício da escrita e reinventar a língua é um de seus objetivos, Ricardo Azevedo (escritor e ilustrador brasileiro) nos oferece a chance de experimentar uma língua que é a nossa, mas outra.

Fragosas Brenhas do Mataréu (2013), vencedor do Prêmio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, é um romance em primeira pessoa contada por um adolescente português no século XVI, que vê sua vida se transformar após a mãe, Joana Machada, ser denunciada à inquisição por supostas práticas hereges, bruxarias etc. Órfão, embarca em uma viagem marítima, mas naufraga na costa de certo país, recém descoberto – paraíso pra uns, para outros terras brasis aonde fora o diabo maquinar seus mal-fazeres. Como único sobrevivente, é forçado a entrar nas brenhas do mato fechado além da praia à procura de abrigo e comida. Tudo isso nas dez primeiras páginas.

Já na apresentação do livro, o escritor diz que embora tenha realizado extensa pesquisa em cartas e registros do século XVI sobre a língua escrita e falada, não se tratava de tentar reproduzir fielmente a língua da época. De forma diversa, seu trabalho foi reinventar e arremedar uma certa maneira de dizer e descrever a vida e as coisas do mundo.

“Disse ela que esperava que tudo fosse bonito pra mim.

– Gosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! – E disse mais: – Se vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.

Disse então a mameluca que então morreria e também um beija-flor de sua boca escaparia.

– Desse jeito iremos nós beija-flores a bater asas e voar, voar, voar (…) Vosmecê e eu mesmazinha para sempre ao alcance um do outro viveremos.” (p. 138)

E não apenas o uso de palavras possivelmente utilizadas à época, ou de uma forma de falar, cheia de inversões que compõem estruturas algumas vezes bastante recortadas, mas ainda mais: a reinvenção e o arremedo criados por Azevedo transpiram em sua forma e conteúdo sinais e características de uma sociedade devota ao catolicismo, aberta às interpretações místicas dos acontecimentos, à compreensão da vida a partir do plano divino, à dura segmentação social e ao encantamento com os mistérios e as descoberta das terras ocultas e incultas das tais fragosas brenhas do paraíso. Enfim, conseguiu mimetizar uma língua que parece viva no uso diverso que cada personagem faz dela.

O rapaz é uma personagem principal bastante interessante já que através de seus olhos, Azevedo consegue transmitir encantamento com cada descoberta que ele faz sobre esse novo lugar, com cada pergunta, com seu bom humor e um ponto de vista, em certa medida, ingênuo. Além disso, a fluidez e velocidade com que novos acontecimentos surgem na história proporcionam dinamismo ao livro, o que dá liberdade para o autor respirar em alguns momentos e refletir mais profundamente sobre a condição do jovem e a própria formação do país – os dois adolescentes da história.

“Contou mais tarde o padre Simão, cheio de medos e preocupações, que, na capela, durante a reunião dos principais do arraial, garantiu a senhora dona viúva que uma situação tão malazarada e jamais vista só podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satanás, do sujo que não sofre quando vê alguém sofrer.” (p. 126)

Alguns temas do livro como a descoberta da sexualidade, questionamentos existenciais sobre os castigos e penúrias que sofria e que não sabia se fora Deus ou o mofino beiçudo quem arquitetara e ainda as questões sobre a relação com os adultos e poderosos homens da vila, sobre seu lugar naquele sistema e sobre como vai se construindo sua amizade com os personagens marginais da vila (negros, mestiços, judeus cristãos-novos, índios etc) – temas que talvez possam ser remetidos à adolescência do narrador; tudo isso ao mesmo tempo que se relaciona com o português moço é ainda uma discussão sobre o país moço, tido como terra dos prazeres sem pecados. Propicia abordar temas como as relações de poder entre os chefes da capitania, os homens-bons e os trabalhadores dos povoados, escravos e índios, e como a mistura de todos eles vai produzindo um povo também dito brasileiro, mas que tem que se questionar todo o tempo sobre seu lugar nesse país.

O narrador tem um estilo que se aproxima da oralidade da contação de estórias (talvez até dos ‘causos’ tão característicos do interior de Minas Gerais). Com fluidez e ritmo característicos do que Walter Benjamin chama de narrativa, são muitos os momentos no livro em que uma personagem em determinada situação começa a narrar outra estória para transmitir ou explicar algo para o grupo.

Impressionou-me deveras perceber o poder que ma simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu coração sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.” (p. 53)

Essas estórias dentro da estória, além de muito boas, são sempre remetidas numa transmissão temporal ainda mais longínqua: a narração secundária (aquela que lemos) é sempre referida como tendo sido contata ao narrador atual por outra pessoa, no passado, em outra situação. Como se essa narrativa ganhasse nova vida através da vida de cada pessoa que a ouviu e que agora a passa adiante.

Ainda que as inversões de ordem, o vocabulário que pode ter palavras hoje pouco utilizadas e as construções do autor para a língua falada pelas personagens possam ser inusitadas, a fluidez e a sonoridade da escrita de Azevedo garantem que logo nas primeiras páginas o leitor já tenha embarcado no jeito de pensar e falar de cada personagem, animados pela língua viva que cada um fala.

 

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