Categoria: resenhas

o tempo e o c√£o: a atualidade das depress√Ķes (2009)| maria rita kehl

Sobre o tema das depress√Ķes, um livro que gosto muito √© O Tempo e o C√£o (2009), da psicanalista Maria Rita Kehl. Ele √© um exemplo excelente de obra te√≥rica, profunda e imensamente atual, que ao mesmo tempo tem qualida

des literárias evidentes! E por isso foi Vencedor do Prêmio Jabuti de 2010 como melhor livro de não-ficção do ano.

A obra busca em seus tr√™s ensaios uma compreens√£o da depress√£o e de seu car√°ter de sintoma social da contemporaneidade. E suas Articula√ß√Ķes se estendem al√©m da psican√°lise. Para Maria Rita, a depress√£o compreende uma experi√™ncia com o tempo.

O livro se inicia com o histórico clássico da melancolia a partir dos gregos. E chega a Freud que captura esse significante para o interior de sua teoria modificando seus sentidos. Já na antiguidade, a depressão (então chamada melancolia) se mostra conectada ao Tempo: na Grécia antiga o deus que representa ambos é Chronos (ou Saturno par os romanos), Deus do Tempo. Walter Benjamin, filósofo alemão, num diagnóstico da modernidade aponta a dor de existir em estreita relação à exigência de pressa e velocidade que vivemos hoje em dia e o fim das grandes narrativas comuns. A depressão marcaria a impossibilidade de atendermos totalmente essas exigências, quando não há mais lugar (e tempo) para apenas viver o tédio e a experiência da vida em comum.


Para os interessados na clínica da depressão, a autora apresenta ainda uma metapsicologia da depressão e uma orientação clínica preciosa a partir de Freud e Lacan para praticantes da psicanálise.

*Livro: O Tempo e o C√£o: a atualidade das depress√Ķes.
Maria Rita Kehl
Editora: @boitempo

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a educação do estóico, barão de teive Рfernando pessoa | resenha

√Ālvaro Coelho de Athayde, o Bar√£o de Teive, certo dia queimou seus escritos, um conjunto de pequenos fragmentos, sobre o fog√£o da cozinha. Preparava-se para realizar o √ļnico ato que nunca falha, segundo Lacan. Mas, no fundo de uma gaveta foi encontrado ‚Äúo √ļnico manuscrito de Bar√£o de Teive‚ÄĚ: A educa√ß√£o do est√≥ico ou a impossibilidade de fazer arte superior. E c√° o temos em m√£os.

Em tom de confiss√£o (ele diria de defini√ß√£o), o Bar√£o nos fala de sua vida e de suas motiva√ß√Ķes para tir√°-la e principalmente comenta as raz√Ķes de n√£o ter feito a obra liter√°ria que queria fazer, tendo esta permanecido inacabada, mesmo antes de lev√°-la ao fogo.

Com este pano de fundo, somos apresentados ao autor do livro, heterónimo de Fernando Pessoa.

No excelente texto ao final do volume, Richard Zenith (editor do livro que reuniu os fragmentos do Bar√£o para comp√ī-lo) nos lembra que os heter√≥nimos de Pessoa eram seus instrumentos de exorcismo e reden√ß√£o. Nesse sentido, os heter√≥nimos tocam e exp√Ķe algo √≠ntimo de Pessoa. Ao Bar√£o, talvez um pouco como o desassossegado Bernardo Soares, tenha cabido a heran√ßa da obra incompleta, e as dificuldades no terreno do sexual e das rela√ß√Ķes afetivas. E somente ao aristocrata coube o horror de ser completamente l√ļcido e racional. Nas palavras de Zenith, ‚Äúo Bar√£o de Teive nasceu pra morrer‚ÄĚ.

Pessoa nos leva a transitar entre as dimens√Ķes da vida real e de sua literatura. Ao ler as palavras que escreveu, n√£o estamos lendo as palavras de Pessoa ele-mesmo, mas aquelas que o Bar√£o escreveu – Bar√£o criado por Pessoa. Ou seja, a separa√ß√£o autor – obra, o primeiro como ser real, ve√≠culo por meio do qual a obra viria a tomar materialidade, √© abalada. O pr√≥prio autor √© uma cria√ß√£o pessoana. O autor √© tamb√©m fic√ß√£o. O que n√£o quer dizer que muito do que ele apresenta deixe de ressoar Pessoa ele-mesmo.

De leitura difícil pela quantidade de fragmentos bastante curtos, A educação do estóico traz momentos de pura beleza, como no parágrafo final em que o autor se vê a narrar numa bela analogia seu momento face a face com o suicídio. Mas, deixemos que o leitor descubra por si este parágrafo. Trago então, outro momento singelo (para o qual a edição de Zenith, imagino, tenha contribuído muito).

Após uma sucessão de fragmentos isolados, inarticulados e incompletos até mesmo em sua estrutura de fragmentos, o Barão nos diz no maior trecho do livro:

‚ÄúPensar que considerei um obra este momento incoerente de coisas, afinal, por escrever! Pensar, neste momento definitivo, que me julguei com for√ßa para sistematizar esses elementos todos numa obra acabada e vis√≠vel! Se o poder sistematizador do pensamento bastasse para a obra se fazer, se a sistematiza√ß√£o fosse coisa que a intensidade da emo√ß√£o pudesse obrar, como um breve poema ou um curto ensaio, ent√£o por certo a minha obra se haveria feito, pois se haveria deveras feito ela, em mim, e n√£o eu a ela, como determinador‚ÄĚ (p. 50).

Fazemos, assim, a experi√™ncia da fragmenta√ß√£o do texto do Bar√£o, de suas lacunas, incompletude e multitude de temas sentido-as na pele, para s√≥ depois ele nos falar de sua v√£ expectativa de compor por eles uma obra acabada, arte superior. Lindo encontro de forma e conte√ļdo.

Pessoa ele-mesmo vivia situação similar. Zenith comenta que ao fim de sua vida, Pessoa estava rodeado de centenas de poemas inacabados, peças, roteiros, contos etc. O Barão de Teive ao lado de Bernardo Soares eram os heterónimos mais próximos da personalidade de Fernando Pessoa.

No Prefacio √°s Fic√ß√Ķes do Interludio (SIC), Pessoa diz que esses dois heter√≥nimos ‚Äús√£o figuras minhamente alheias – escrevem com a mesma subst√Ęncia de estylo, a mesma grammatica, e o mesmo typo e forma de propriedade: √© que escrevem com o estylo que, bom ou mau, √© o meu‚ÄĚ (p. 529).

Como êxtimos de Pessoa, couberam-lhes os temas da dificuldade da criação artística e da incompletude a que todo discurso está sujeito.


  • A educa√ß√£o do est√≥ico, Bar√£o de Teive – Fernando Pessoa. Edi√ß√£o A Girafa, 2006.
  • Prefacio √°s fic√ß√Ķes do interludio, em O Livro do Desassossego, Bernardo Soares – Fernando Pessoa. Edi√ß√£o Tinta da China, 2013.

 

fragosas brenhas do mataréu Рricardo azevedo | resenha

Se a lida com as palavras é o que caracteriza o ofício da escrita e reinventar a língua é um de seus objetivos, Ricardo Azevedo (escritor e ilustrador brasileiro) nos oferece a chance de experimentar uma língua que é a nossa, mas outra.

Fragosas Brenhas do Matar√©u (2013), vencedor do Pr√™mio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, √© um romance¬†em primeira pessoa contada por um adolescente portugu√™s no s√©culo XVI, que v√™ sua vida se transformar ap√≥s a m√£e, Joana Machada, ser denunciada √† inquisi√ß√£o por supostas pr√°ticas hereges, bruxarias etc. √ďrf√£o, embarca em uma viagem mar√≠tima, mas naufraga na costa de certo pa√≠s, rec√©m descoberto – para√≠so pra uns, para outros terras brasis aonde fora o diabo maquinar seus mal-fazeres. Como √ļnico sobrevivente, √© for√ßado a entrar nas brenhas do mato fechado al√©m da praia √† procura de abrigo e comida. Tudo isso nas dez primeiras p√°ginas.

Já na apresentação do livro, o escritor diz que embora tenha realizado extensa pesquisa em cartas e registros do século XVI sobre a língua escrita e falada, não se tratava de tentar reproduzir fielmente a língua da época. De forma diversa, seu trabalho foi reinventar e arremedar uma certa maneira de dizer e descrever a vida e as coisas do mundo.

“Disse ela que esperava que tudo fosse bonito pra mim.

РGosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! РE disse mais: РSe vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.

Disse então a mameluca que então morreria e também um beija-flor de sua boca escaparia.

– Desse jeito iremos n√≥s beija-flores a bater asas e voar, voar, voar (…) Vosmec√™ e eu mesmazinha para sempre ao alcance um do outro viveremos.” (p. 138)

E n√£o apenas o uso de palavras possivelmente utilizadas √† √©poca, ou de uma forma de falar, cheia de invers√Ķes que comp√Ķem estruturas algumas vezes bastante recortadas, mas ainda mais: a reinven√ß√£o e o arremedo criados por Azevedo transpiram em sua forma e conte√ļdo sinais e caracter√≠sticas de uma sociedade devota ao catolicismo, aberta √†s interpreta√ß√Ķes m√≠sticas dos acontecimentos, √† compreens√£o da vida a partir do plano divino, √† dura segmenta√ß√£o social e ao encantamento com os mist√©rios e as descoberta das terras ocultas e incultas das tais fragosas brenhas do para√≠so. Enfim, conseguiu mimetizar uma l√≠ngua que parece viva no uso diverso que cada personagem faz dela.

O rapaz é uma personagem principal bastante interessante já que através de seus olhos, Azevedo consegue transmitir encantamento com cada descoberta que ele faz sobre esse novo lugar, com cada pergunta, com seu bom humor e um ponto de vista, em certa medida, ingênuo. Além disso, a fluidez e velocidade com que novos acontecimentos surgem na história proporcionam dinamismo ao livro, o que dá liberdade para o autor respirar em alguns momentos e refletir mais profundamente sobre a condição do jovem e a própria formação do país Рos dois adolescentes da história.

‚ÄúContou mais tarde o padre Sim√£o, cheio de medos e preocupa√ß√Ķes, que, na capela, durante a reuni√£o dos principais do arraial, garantiu a senhora dona vi√ļva que uma situa√ß√£o t√£o malazarada e jamais vista s√≥ podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satan√°s, do sujo que n√£o sofre quando v√™ algu√©m sofrer.” (p. 126)

Alguns temas do livro como a descoberta da sexualidade, questionamentos existenciais sobre os castigos e pen√ļrias que sofria e que n√£o sabia se fora Deus ou o mofino bei√ßudo quem arquitetara e ainda as quest√Ķes sobre a rela√ß√£o com os adultos e poderosos homens da vila, sobre seu lugar naquele sistema e sobre como vai se construindo sua amizade com os personagens marginais da vila (negros, mesti√ßos, judeus crist√£os-novos, √≠ndios etc) – temas que talvez possam ser remetidos √† adolesc√™ncia do narrador; tudo isso ao mesmo tempo que se relaciona com o portugu√™s mo√ßo √© ainda uma discuss√£o sobre o pa√≠s mo√ßo, tido como terra dos prazeres sem pecados. Propicia abordar temas como as rela√ß√Ķes de poder entre os chefes da capitania, os homens-bons e os trabalhadores dos povoados, escravos e √≠ndios, e como a mistura de todos eles vai produzindo um povo tamb√©m dito brasileiro, mas que tem que se questionar todo o tempo sobre seu lugar nesse pa√≠s.

O narrador tem um estilo que se aproxima da oralidade da conta√ß√£o de est√≥rias (talvez at√© dos ‚Äėcausos‚Äô t√£o caracter√≠sticos do interior de Minas Gerais). Com fluidez e ritmo caracter√≠sticos do que Walter Benjamin chama de narrativa, s√£o muitos os momentos no livro em que uma personagem em determinada situa√ß√£o come√ßa a narrar outra est√≥ria para transmitir ou explicar algo para o grupo.

Impressionou-me deveras perceber o poder que ma simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu cora√ß√£o sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.” (p. 53)

Essas estórias dentro da estória, além de muito boas, são sempre remetidas numa transmissão temporal ainda mais longínqua: a narração secundária (aquela que lemos) é sempre referida como tendo sido contata ao narrador atual por outra pessoa, no passado, em outra situação. Como se essa narrativa ganhasse nova vida através da vida de cada pessoa que a ouviu e que agora a passa adiante.

Ainda que as invers√Ķes de ordem, o vocabul√°rio que pode ter palavras hoje pouco utilizadas e as constru√ß√Ķes do autor para a l√≠ngua falada pelas personagens possam ser inusitadas, a fluidez e a sonoridade da escrita de Azevedo garantem que logo nas primeiras p√°ginas o leitor j√° tenha embarcado no jeito de pensar e falar de cada personagem, animados pela l√≠ngua viva que cada um fala.