Categoria: literatura

a educação do estóico, barão de teive – fernando pessoa | resenha

Álvaro Coelho de Athayde, o Barão de Teive, certo dia queimou seus escritos, um conjunto de pequenos fragmentos, sobre o fogão da cozinha. Preparava-se para realizar o único ato que nunca falha, segundo Lacan. Mas, no fundo de uma gaveta foi encontrado “o único manuscrito de Barão de Teive”: A educação do estóico ou a impossibilidade de fazer arte superior. E cá o temos em mãos.

Em tom de confissão (ele diria de definição), o Barão nos fala de sua vida e de suas motivações para tirá-la e principalmente comenta as razões de não ter feito a obra literária que queria fazer, tendo esta permanecido inacabada, mesmo antes de levá-la ao fogo.

Com este pano de fundo, somos apresentados ao autor do livro, heterónimo de Fernando Pessoa.

No excelente texto ao final do volume, Richard Zenith (editor do livro que reuniu os fragmentos do Barão para compô-lo) nos lembra que os heterónimos de Pessoa eram seus instrumentos de exorcismo e redenção. Nesse sentido, os heterónimos tocam e expõe algo íntimo de Pessoa. Ao Barão, talvez um pouco como o desassossegado Bernardo Soares, tenha cabido a herança da obra incompleta, e as dificuldades no terreno do sexual e das relações afetivas. E somente ao aristocrata coube o horror de ser completamente lúcido e racional. Nas palavras de Zenith, “o Barão de Teive nasceu pra morrer”.

Pessoa nos leva a transitar entre as dimensões da vida real e de sua literatura. Ao ler as palavras que escreveu, não estamos lendo as palavras de Pessoa ele-mesmo, mas aquelas que o Barão escreveu – Barão criado por Pessoa. Ou seja, a separação autor – obra, o primeiro como ser real, veículo por meio do qual a obra viria a tomar materialidade, é abalada. O próprio autor é uma criação pessoana. O autor é também ficção. O que não quer dizer que muito do que ele apresenta deixe de ressoar Pessoa ele-mesmo.

De leitura difícil pela quantidade de fragmentos bastante curtos, A educação do estóico traz momentos de pura beleza, como no parágrafo final em que o autor se vê a narrar numa bela analogia seu momento face a face com o suicídio. Mas, deixemos que o leitor descubra por si este parágrafo. Trago então, outro momento singelo (para o qual a edição de Zenith, imagino, tenha contribuído muito).

Após uma sucessão de fragmentos isolados, inarticulados e incompletos até mesmo em sua estrutura de fragmentos, o Barão nos diz no maior trecho do livro:

“Pensar que considerei um obra este momento incoerente de coisas, afinal, por escrever! Pensar, neste momento definitivo, que me julguei com força para sistematizar esses elementos todos numa obra acabada e visível! Se o poder sistematizador do pensamento bastasse para a obra se fazer, se a sistematização fosse coisa que a intensidade da emoção pudesse obrar, como um breve poema ou um curto ensaio, então por certo a minha obra se haveria feito, pois se haveria deveras feito ela, em mim, e não eu a ela, como determinador” (p. 50).

Fazemos, assim, a experiência da fragmentação do texto do Barão, de suas lacunas, incompletude e multitude de temas sentido-as na pele, para só depois ele nos falar de sua vã expectativa de compor por eles uma obra acabada, arte superior. Lindo encontro de forma e conteúdo.

Pessoa ele-mesmo vivia situação similar. Zenith comenta que ao fim de sua vida, Pessoa estava rodeado de centenas de poemas inacabados, peças, roteiros, contos etc. O Barão de Teive ao lado de Bernardo Soares eram os heterónimos mais próximos da personalidade de Fernando Pessoa.

No Prefacio ás Ficções do Interludio (SIC), Pessoa diz que esses dois heterónimos “são figuras minhamente alheias – escrevem com a mesma substância de estylo, a mesma grammatica, e o mesmo typo e forma de propriedade: é que escrevem com o estylo que, bom ou mau, é o meu” (p. 529).

Como êxtimos de Pessoa, couberam-lhes os temas da dificuldade da criação artística e da incompletude a que todo discurso está sujeito.


  • A educação do estóico, Barão de Teive – Fernando Pessoa. Edição A Girafa, 2006.
  • Prefacio ás ficções do interludio, em O Livro do Desassossego, Bernardo Soares – Fernando Pessoa. Edição Tinta da China, 2013.

 

fragosas brenhas do mataréu – ricardo azevedo | resenha

Se a lida com as palavras é o que caracteriza o ofício da escrita e reinventar a língua é um de seus objetivos, Ricardo Azevedo (escritor e ilustrador brasileiro) nos oferece a chance de experimentar uma língua que é a nossa, mas outra.

Fragosas Brenhas do Mataréu (2013), vencedor do Prêmio Jabuti de 2014 na categoria Infanto-Juvenil, é um romance em primeira pessoa contada por um adolescente português no século XVI, que vê sua vida se transformar após a mãe, Joana Machada, ser denunciada à inquisição por supostas práticas hereges, bruxarias etc. Órfão, embarca em uma viagem marítima, mas naufraga na costa de certo país, recém descoberto – paraíso pra uns, para outros terras brasis aonde fora o diabo maquinar seus mal-fazeres. Como único sobrevivente, é forçado a entrar nas brenhas do mato fechado além da praia à procura de abrigo e comida. Tudo isso nas dez primeiras páginas.

Já na apresentação do livro, o escritor diz que embora tenha realizado extensa pesquisa em cartas e registros do século XVI sobre a língua escrita e falada, não se tratava de tentar reproduzir fielmente a língua da época. De forma diversa, seu trabalho foi reinventar e arremedar uma certa maneira de dizer e descrever a vida e as coisas do mundo.

“Disse ela que esperava que tudo fosse bonito pra mim.

– Gosto de vosmecê desdezinho o brilhabrilhoso dia quando no arraial pela primeira vez nossos olhos se casaram! – E disse mais: – Se vosmecê encontrar um dia a morte vai sair de sua boca um beija-flor escapar feito frecha. Depois um pé de vento vai soprasoprar e girar e gemer e ventar ventando com tamanha força que, mesmo longelazinho, logo vou eu saber.

Disse então a mameluca que então morreria e também um beija-flor de sua boca escaparia.

– Desse jeito iremos nós beija-flores a bater asas e voar, voar, voar (…) Vosmecê e eu mesmazinha para sempre ao alcance um do outro viveremos.” (p. 138)

E não apenas o uso de palavras possivelmente utilizadas à época, ou de uma forma de falar, cheia de inversões que compõem estruturas algumas vezes bastante recortadas, mas ainda mais: a reinvenção e o arremedo criados por Azevedo transpiram em sua forma e conteúdo sinais e características de uma sociedade devota ao catolicismo, aberta às interpretações místicas dos acontecimentos, à compreensão da vida a partir do plano divino, à dura segmentação social e ao encantamento com os mistérios e as descoberta das terras ocultas e incultas das tais fragosas brenhas do paraíso. Enfim, conseguiu mimetizar uma língua que parece viva no uso diverso que cada personagem faz dela.

O rapaz é uma personagem principal bastante interessante já que através de seus olhos, Azevedo consegue transmitir encantamento com cada descoberta que ele faz sobre esse novo lugar, com cada pergunta, com seu bom humor e um ponto de vista, em certa medida, ingênuo. Além disso, a fluidez e velocidade com que novos acontecimentos surgem na história proporcionam dinamismo ao livro, o que dá liberdade para o autor respirar em alguns momentos e refletir mais profundamente sobre a condição do jovem e a própria formação do país – os dois adolescentes da história.

“Contou mais tarde o padre Simão, cheio de medos e preocupações, que, na capela, durante a reunião dos principais do arraial, garantiu a senhora dona viúva que uma situação tão malazarada e jamais vista só podia ser obra do manfarrico, do manes, do asmodeu, do satanás, do sujo que não sofre quando vê alguém sofrer.” (p. 126)

Alguns temas do livro como a descoberta da sexualidade, questionamentos existenciais sobre os castigos e penúrias que sofria e que não sabia se fora Deus ou o mofino beiçudo quem arquitetara e ainda as questões sobre a relação com os adultos e poderosos homens da vila, sobre seu lugar naquele sistema e sobre como vai se construindo sua amizade com os personagens marginais da vila (negros, mestiços, judeus cristãos-novos, índios etc) – temas que talvez possam ser remetidos à adolescência do narrador; tudo isso ao mesmo tempo que se relaciona com o português moço é ainda uma discussão sobre o país moço, tido como terra dos prazeres sem pecados. Propicia abordar temas como as relações de poder entre os chefes da capitania, os homens-bons e os trabalhadores dos povoados, escravos e índios, e como a mistura de todos eles vai produzindo um povo também dito brasileiro, mas que tem que se questionar todo o tempo sobre seu lugar nesse país.

O narrador tem um estilo que se aproxima da oralidade da contação de estórias (talvez até dos ‘causos’ tão característicos do interior de Minas Gerais). Com fluidez e ritmo característicos do que Walter Benjamin chama de narrativa, são muitos os momentos no livro em que uma personagem em determinada situação começa a narrar outra estória para transmitir ou explicar algo para o grupo.

Impressionou-me deveras perceber o poder que ma simples narrativa podia ter. De um lado, fazer meu coração sentir-se de alguma forma vingado. Ao mesmo tempo, fazer pensar e meditar toda a gente do povoado sobre as fraudes e torpezas que no mundo podia haver.” (p. 53)

Essas estórias dentro da estória, além de muito boas, são sempre remetidas numa transmissão temporal ainda mais longínqua: a narração secundária (aquela que lemos) é sempre referida como tendo sido contata ao narrador atual por outra pessoa, no passado, em outra situação. Como se essa narrativa ganhasse nova vida através da vida de cada pessoa que a ouviu e que agora a passa adiante.

Ainda que as inversões de ordem, o vocabulário que pode ter palavras hoje pouco utilizadas e as construções do autor para a língua falada pelas personagens possam ser inusitadas, a fluidez e a sonoridade da escrita de Azevedo garantem que logo nas primeiras páginas o leitor já tenha embarcado no jeito de pensar e falar de cada personagem, animados pela língua viva que cada um fala.

 

dia um

Dia primeiro do ano foi um domingo, primeiro dia de cada semana.
Continuamos celebrando a primeira semana. Mas, logo virá a segunda, menos importante. Assim como veio a Segunda (feira), logo a terceira, a quarta… todas virão.
E esses dias não serão celebrados.
São aqueles indesejados dias, às vezes insossos, outras amargos, que compõem instantes supérfluos, com pitadas de folia, entre um Natal-Ano Novo e outro Natal-Ano Novo. Dias que apenas acontecem, ou desacontecem, muitas vezes sem deixar qualquer marca na memória.
Ainda pior: são dias em que nada se renova. Votos de felicidade, de sucesso, de paz e de esperança de que após meia noite a vida será completamente diferente e melhor são adiados até o próximo 31 de dezembro, quando em seguida outro primeiro dia virá.
E se cada dia fosse como o primeiro? E se cada dia fosse a página branca pra escrever tudo que se queira – se o novo dia nascesse do anterior e se deitasse sobre o seguinte para escrever um verdadeiro tempo?
E se ao fim de cada dia, fôssemos cheios da certeza da melhora na manhã seguinte?
E se a cada manhã, se renovasse a beleza do novo dia?

Se cada dia trouxesse em suas horas a esperança de que a mudança, feita por nós, é desejada, necessária e certa; ainda assim, esperaríamos que somente o distante início do próximo ano nos traga paz e coragem?