200 mil lutos e a melancolia (ou “pra quê essa ansiedade? essa angústia?”)

Amazonas desativou, entre julho e outubro, 85% dos leitos de UTI criados para Covid-19 - 15/01/2021 - Equilíbrio e Saúde - Folha

Em Manaus, um homem com roupa de proteção contra covid-19 carrega a armação de uma sepultura enquanto ele próprio está dentro da armação.

Algum tempo depois das mortes em Brumadinho pelo rompimento da barragem da Vale, familiares e amigos das pessoas mortas deram as mãos formando um círculo imenso em torno do lugar onde muitos de seus entes amados ainda estavam soterrados. Agora, já eram considerados “enterrados”. Sem terem tido a chance de velar quem ali estava, os familiares e amigos, um depois do outro, ainda de mãos dadas, diziam o nome do filho, da esposa, dos amigos, do namorado… que perderam ali, enterrados.

Um amigo, revoltado com tudo que aconteceu me disse: “De que adianta isso?!” Pode não parecer à primeira vista, mas adianta muito.

Ao perder alguém nós somos empurrados a um trabalho: o luto. Sim, parece estranho chamar dessa forma, mas é um trabalho de luto. O primeiro passo para realizar esse trabalho é o reconhecimento de que alguém muito amado morreu e que essa morte foi uma perda. Cada corpo que ainda está debaixo da terra em Brumadinho tinha um nome. Era mais que um corpo. Dizer o nome marca que aquele corpo não é um corpo qualquer. Aquele corpo, quando dormia, sonhava sonhos que nunca mais se repetirão, tinha uma música preferida, um jeito de falar…

Mas, mais do que isso: o círculo de pessoas que diz o nome de cada um dos mortos ali, também escuta cada um dos nomes dos mortos ali. E assim, coletivamente todos reconhecem o que aconteceu àqueles corpos e o que interrompeu o que eles eram.

O luto não se faz sozinho. Um velório reúne os conhecidos de alguém para que tenham um último momento em sua presença antes de se despedirem e para que se reconheça que algo triste aconteceu ali. Um luto se faz em conjunto com outros.

A pandemia da COVID-19 impediu, no mundo inteiro, que realizássemos velórios como antes. Todos nós ouvimos os relatos de familiares que perderam alguém que foi do hospital ao cemitério em sacos plásticos ou em caixões fechados sem a chance de realizar o rito, muito simples, mas que humaniza e celebra a humanidade daquele que morreu e prepara os que ficaram para uma vida diferente daquela à qual estavam acostumados.

Os efeitos negativos das dificuldades de completar um trabalho de luto nós colhemos constantemente nos consultórios. Como Freud apontou, o luto é um afeto normal, mas que exige um trabalho para que possa ser elaborado e a pessoa enlutada novamente encontrar-se aberta a novas ligações amorosas. Porque quando alguém morre, morre também uma pequena parte daqueles que o conheciam. Se o luto não se elabora, o que virá é a paralisia da melancolia, uma espécie de luto nunca superado.

Mas, o que acontece quando a morte de alguém ou de 200 mil alguéns não são reconhecidas como perdas de vidas que mereciam continuar vivendo?

O que é não reconhecer a morte de 200 mil pessoas como a tragédia que é?

Amenizar a gravidade do que acontece é dizer que há vidas que podem morrer e que o Estado ou a comunidade, não se importarão. É o que acontece, por exemplo, com a juventude negra no Brasil. São vidas matáveis. Durante a pandemia, vimos que há vidas (não necessariamente matáveis, mas) que não serão pranteadas como perda pelo Estado. O que podemos esperar de um Estado incapaz de se comover quando 200 mil de seus filhos morrem?

Não se trata um luto com indiferença ou silêncio. Mas, com palavras. Palavras que apontem um desejo de vida. Maria Rita Kehl diz que “não há reação mais nefasta diante de um trauma social do que a política do silêncio e do esquecimento, que empurra para fora dos limites da simbolização as piores passagens de uma sociedade.” 

Se o luto não se faz sozinho, o luto de uma tragédia nacional (e mundial) não se faz sem que a população se una para elaborar esse luto. Falar, criar arte, prantear seus mortos, falar de seus mortos, não esquecê-los, não caçoar de suas mortes… Unir essa população para dar força ao trabalho de luto que permita uma superação seria função de um líder, por exemplo, ou quem, por força de uma representação, falasse em nome dos enlutados e do Estado, que fica cada vez menor. 200 mil vezes menor.

Mas, para certos Estados, interessa uma população melancolizada. Segundo Safatle, o poder age nos melancolizando – paralisando nossa capacidade de ação política. E quando as queixas aumentam e começam a fazer um barulho que incomoda, a resposta é “pra quê essa ansiedade? essa angústia?”. Ou seja, o problema está na cabeça de quem reclama…

Eles não percebem que a angústia é sinal do desamparo ao qual o país foi lançado. Não há com quem contar. Eles não percebem ou fingem não perceber. Mas o que eles não sabem é que o desamparo pode ser profundamente danoso, mas é também o afeto que permite que aquilo que nunca foi nem ao menos sonhado possa ganhar corpo e força e lastro.

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Livros que aparecem no texto:

Freud, S. (1917/2011). Luto e Melancolia. São Paulo: Cosac Naify.

Kehl, M. R. (2010) Tortura e sintoma social. In: Teles, E.; Safatle, V. (Org.). O que resta da ditadura. São Paulo: Boitempo. p. 123-132.

Safatle, V. (2016). O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica Editora.

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